quinta-feira, novembro 23

Ora, sao


Depois da mare' boa, te prepara pra enxurrada de merda! E' como um banho longo bem intencionado de cheiros purificadores. Tu sais de banho sentindo bem e nao espera a tromba d'agua suja vinda la' de fora de repente. Assim acontece, basta um sorriso mais prolongado que te invejam ate' o siso. Querem arrancar teu juizo sem demora. Dai' tu te sentes fraco sem saber motivo. Mas sao justamente esses vampiros sugadores da tua melhor energia com os caninos roubados, ora!

Quer um conselho? Vai 'a praia, toma onda pelas costas, ja' que falam tanto de ti por elas. Sal grosso afina as cobras, extraindo veneno dos dentes afiados. Depois caminha n'areia. Cada passo, um grao nas vistas covardes. Cave ali a cova para os negativos, enterre as ma's fotos das lembranc,as. Crave a clave de sol deixando cicatrizes profundas. 90graus

Eis que um mar vermelho se extende por um canal da mancha. Na beira do rio chines as baianas lavam roupa com fitinhas do Senhor do Bom Fim nos pulsos. Um monge sufista cai da prancha, mas caminha Pero Vaz sobre as a'guas de quartinha, do cantil sedento do eremita desse desertao. Seu suor salga a terra. Bendito o fruto do oceano ventre. 'Indabem!

Um comentário:

Pal, a voz silente disse...

Carta aos Mortos

Amigos, nada mudou em essência.
Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram e há vírus novos e terríveis, embora o avanço da medicina. Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem e a solidão.
Em cada olimpíada há récordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto com a modernidade.
Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera chega pontualmente cada ano.
Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam. Ninguém mais coloca cadeiras na calçada ou toma a fresca da tarde, mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.
Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias não avançamos nada. Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam, países se dividem e as formigas e abelhas continuam fiéis ao seu trabalho. Nada mudou em essência.
Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia um de nós olha o céu quando estrelado com o mesmo pasmo das cavernas. E cada geração , insolente,
continua a achar que vive no ápice da história.

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA