quinta-feira, novembro 30

S/A


Era bom ser anonima. A fama azucrina a escritura com essa espera do outro. Espera de alguma coisa, revide, desabafo, filosofia de quintal. Nem quintal eu tenho, apenas fundo! Talvez seja ali em baixo, n'avenida. Jogar bola seria brincar com a vida no olho da rua. Entao, vou desabafar pela zilhonesima vez. As estatisticas comprovam o apelo do povo em meter a botija na boca, sem meter a colher na briga das palavras. Mantenho a minha, mulher recatada. O segredo e' saber atingir o publico alvo com a pena sob disfarce de flecha. Seria revide? Hum... Deixe-me ver... Ora, qualquer um se encabula com alguem espionando a sua intimidade. A nao ser que ela se converta em poesia, proeza de poucos. Participar da maioria vende, mas corrompida nao favorec,o. Esse estado de tensao permanente nos faz espirrar na escrita, a isto denominaram catarse. Prefiro denominar vicio. Cheirar o po' dos livros, livrarmos nus por completo. Escrevendo piro, reescrevendo respiro. Nao sei o que me da'. Compulsao. Ficar atento para isso evita mal-estar. No leitor, claro. Porque se ficar escuro, hermetico, fecham a resma impressa apressadamente na cara. Na cara do autor que tem a foto na orelha e uma biografia. Imagine se a vida dele for um fiasco? Acho que isso agrada os ledores, muitos parecem gostar de sentir piedade. Quero ser reconhecida apenas quando desencarnar. Logicamente, ora! Os bons penaram durante a existencia, morreram jovens, suicidaram-se com cartas na manga e depois: sucesso posmortem. Um anjo me confessou ser Rimbaud. Disse estar felississimo no alem com seus comparsas das Letras cheios de Absinto. Por isso almejo o anonimato, senao me mato a vontade do ex-cre-ver. E' ler pra crer!

Um comentário:

Pal, a voz silente disse...

"Esse esforço que farei agora por deixar subir à tona um sentido, qualquer que seja, esse esforço seria facilitado se eu fingisse escrever para alguém. Mas receio começar a compor para poder ser entendida pelo alguém imaginário, receio começar a "fazer" um sentido, com a mesma mansa loucura que até ontem era o meu modo sadio de caber no sistema. Terei de ter a coragem de usar um coração desprotegido e de ir falando para o nada e para o ninguém? - assim como uma criança pensa para o nada - e correr o risco de ser esmagada pelo acaso."

Paixão Segundo G.H.

http://www.tvcultura.com.br/aloescola/literatura/claricelispector/clariceaescritora.htm