sábado, dezembro 9

Lispectorante


Com ela eu acordo, sempre do meu lado. Café de la manhãna tomado. Suporte para um começo. Com ela saio, sentada em meu colo no ônibus. Uma criança pululando de felicidade clandestina. Com ela chego. Chega! Chego à conclusão que os lugares não têm mais fim. Como as estórias. Depende do olhar, mas ela não me olha, contempla-me as vísceras. Eu a leio como quem quer descobrir o sentido da vida. Com ela descubro o mundo, o corpo e sua via crucis em expansão. Com ela me deito, deleito-me no leito, peito aberto feito flor de lis. Deixo de ser quem sou para ser nela. Sinto a alma crescer. Fermento invisível dentro dum bolo comum chamado multidão. Com ela excomungo. Mastigo a hóstia e sofro de hemorragia interna. O sangue é alcoólico, vinho anti-cristãolizado. Tira-desgosto. Sem gosto da falida instituição. Podemos erguer igrejas com livros pagãos, sem pagar o dízimo. Biblioteca pública da divina perfeição: ela, claro. Clarice bruxa de luz bruxuleante. Amor maeterno por ti. Amém.
(Amem-na também!)

Um comentário:

Tarco Zan disse...

Tou emociado com tua redescoberta do mundo de clarice. Que mistérios tem Clarice? Ela morreu em 9/12/1977. Fim de ano, calor tropical. Quando a conheci lamentei a morte com pesar dolorido imaginando que um pouquinho mais, se tivesse vivido um pouquinho mais, teria vivido até hoje - avanços na área da saúde - talvez sim talvez não. Ela dizia que ter nascido lhe tirara a saúde. Se viva eu já teria ido visitá-la como no ENCONTRO.