quinta-feira, dezembro 7

Po's Conceito


Dias idos estive eu lendo A Descoberta do Mundo sentada em minha reserva pelo centro cultural. Deparei-me com um simpatico homem a me cumprimentar com a branquiescencia de seus dentes. Sentou-se a meu lado. Era noite, receei menos pelos guardas ao redor. Do you speak English? Ele perguntou. Respondi meu modesto A Little Bit, entao prosseguimos a conversation. Era hora de extravasar meu Inglês da semana, ja' que havia faltado ao curso. Valeu por uma aula, logo entusiasmei. Ate' o momento, so' tinha vertido minha segunda lingua com dois nativos: Cray, um maluco de Los Angeles, a cara do Mel Gibson e Diene Beland, minha teacher Canadense, fluente tambem em Frances. Desta vez tratava-se de Daniel, um Africano de sotaque notadamente entruncado, o que me fez va'rias vezes pedir para repetir suas expressoes.

Falamos de tudo que e' o'bvio a um papo de apresentacao. Profissao, musica, familia, hobbies. Dizia ele ser engenheiro eletronico, que estava de passagem por Fortaleza, mas que pretendia regressar em Fevereiro. Hospedado num apartamento com amigos ali nas redondezas, perguntou onde morava, eu nao especifiquei, so' falei dos meus intentos profissionais, estudos de linguagem e artes, bla bla bla. O assunto descambou para o amoroso, naturalmente. Quis logo saber se tinha namorado, analisando minha tez alva que se avermelhava, meu decote sutil e a boca decidida ao responder um NAO. Elogios no decorrer da conversa, ate' que a aproximac,ao verbal comec,ou a ficar por demais incisiva. Pediu-me em namoro. Ri na cara dele. Expliquei que a minha cultura nao permitia isso, nao a do meu povo, mas a minha propria. Nao e' assim que as coisas funcionavam, afinal, tratava-se de um total desconhecido. Permiti somente um coleguismo, dando E-mail no fim, caso quisesse trocar informacoes e eu exercitar o idioma. Ele acabou pedindo o telefone, insistente.

Antes de ir, prometeu mundos e fundos, casa, comida, simplesmente porque disse ter gostado de mim logo 'a primeira vista, que era possivel descobrir se uma pessoa era confiavel so' pelo tom da voz. Assustada, fui me esquivando, era loucura no minimo. Depois pensei o pior, exploracao sexual, rapto, trafico etc. E me senti ofendida. Assim, aprumei meu vocabulario e discursei sobre minha aversao ao crime que pairava em meu pais, mormente em minha cidade, por esta possuir um turismo privilegiado e, por isso, tamanhamente explorado. Ele engoliu saliva grossa e se desculpou. Senti nojo do fundo dos olhos dele, entretanto, minha finesse nao permitiu vomitar tantas injurias. Despedi-me com um aperto de mao distante, saindo donde estava, indo depois espionar o que esse Daniel faria em seguida. Quem seria a proxima vitima?

Voltei para casa com pressa e os pensamentos a mil por hora. Ficou martelando uma sigla na cabec,a: AIDS AIDS. Africa... Imaginei canibais, tive medo de virar uma boneca de Voodoo. Passou uma semana. Numeros desconhecidos no meu celular. Ontem, durante uma confraternizacao com amigos, mensagens estranhas enviadas. Achei que fosse engano ou brincadeira dalgum desocupado, mas havia a assinatura daquele homem bizarro. E me escreveu um pedido de casamento, que estava apaixonado, que nao conseguia me esquecer desde aquele dia, que... Arrrg!!! Meus dedos velozes apagaram imediatamente todos os vestigios. Chega de insanidades por hora, e' esse vislumbre doentio que destroi, que aparta os individuos! Esse tipo de afetividade cega, e' mito, e' desequilibrio. E Se nao for o cumulo da ingenuidade, sera' o cumulo da ma' intencao.

Um comentário:

Pal, a voz silente disse...

"Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida."

C. Lispector sobre seu livro:
A DESCOBERTA DO MUNDO