quarta-feira, maio 30

Maquiável

Eles tiveram nojo do meu ácido ao beijarem a linguaruda. Só o que eu fiz foi ficar sentada no silêncio a esperar captar qualquer som Divine. Que não existe, já sei que nem existe! Sou mesmo uma carranca absurda, afasto almas depenadas, mastigo-lhes a carne mal passada de gente, dou baforadas de cigarro no nariz do ouvido. Macumba; pisei na vazilha, comi farofa de encruzilhada. Meu pé está arrebentado de andar tanto ontem com um namorado que nem era seu, seria? Terminados, nenhum compromisso. Comprimidos pelo complô do espaço. Mutante a me apelidar de marcianita. Ele introjetou seu desejo em tudo de mim, desvenuseado a trocar camisa. Contou sua história, abriu diário, bebeu minha agonia com cheiro de cachaça amarga derramada em sua mochila. Oferecemos bebida a uma douda transeunte sem causa. Chamava Ana, cantamos para ela ("...seus lábios são labiritos, Ana/ que atraem os meus instintos mais sacanas...") Perdi meus óculos e minha miopia. Fui ler Pessoa para o vento na beira da praia, Poema em linha reta, quando meu mais novo desnamorado adormeceu. Eu não podia. Cansei de escusar a alheia poesia, agora rezo um credo meu, sem pai do céu azul escarlate. Doença escarlatina. Quase fomos presos ontem à madrugada na reitoria, quase morri, três guardas. Mentiras, safas mentiras. Forjamos identidade na palavra. Parecia o fim do mundo quando eu ria. Engoli um choro perverso, amanhecendo o dia. Queria só mais um gozo profético, quando o efeito melancoólico ultra-passou e nós nos recolhemos dentro das cascas dos ônibus. Dois vadios sujos a olhar criança indo pra escola, gente outra ao trabalho e eu isso dando. Evitem me amar, artistas, eu não mereço um terço rezado, um gato enterrado vivo, nem um banho tomado! Fui dormir imunda na falta d'água. Moro em prédio amarelo e baixo, de nome Exupery escrito. O autor do pequeno príncipe. Antes fosse um Príncipe máximo do seu Maquiavel Nicolau! Mas preciso maquiar agora minha imagem do real...

3 comentários:

Daniel Serrano disse...

Soa bem, meio ao tudo, o Humberto G. -singelo.

Tarco Zan disse...

eu, eu te digo que es atleta atônita, e digo mais: vai ser preciso dar muitos saltos mais pra chegar ao ouro. Perdão, mas ainda tem isso: ouro não vale nada, no final das contas

A Voz Silente disse...

Imaginei-me em treinamentos de salto com vara por sobre arco-íris, querido Tarco!