sábado, novembro 4

NARCISA

E' preciso confessar, com o mesmo delIrio dos que me debruc,am os cilios a distancia:
- Sinto tesao por mim mesma!
Meu corpo grita em curvas sutis dentro do espelho, dentro de um vestido que se despe sozinho. Colado, danc,a com alma acesa debulhada em sedutores sorrisos. Os seios, que tambem sorriem, apontam para o meu ritmo, descalc,a, em passinhos mimosos de cinderela que nao perdeu nenhum dos sapatos. Sinto o piso gelado contradanc,ando com o calor percorrendo minhas saliencias. Pele alva em alvoroc,o, avermelha-se, assemelha-se a tudo que pronuncia vida. Cabelos acortinando ombros suados, mascarando a meia-face verdade nenhuma entremeada na boca. Fruta amadurecida. Ensaliva a vontade de beijar, enquanto as maos deslizam nas proeminencias cabiveis, a tocarem abaixo o sangue superior que dara luz algum dia. Fac,a chuva ou sol, derramado nesta terra-mundo. Entao, nascera um ser em pelo e sem pudor, fruto do semen em mim mergulhado profundo. Eu continuo filha, nua e sem cobertas a brincar com a liberdade. Sigo flertando com o futuro, enquanto o passado adolesc,o... Descoberta!

Um comentário:

Pal, a voz silente disse...

A SURPRESA

"Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência.
Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo."

In: A Descoberta do Mundo,
C. Lispector