quinta-feira, janeiro 18

Caleidoscópica

por Dulce Quental IN: SCREAM & YELL CULTURA POP

"The Thrill is Gone", sussurra Chet Baker fazendo a ficha cair mais rápido que um tiro no coração. Corro pro "Collins Cobuild", "English Language Dictionary" pra saber o sentido exato da palavra "thrill", embora eu já saiba exatamente o que ela quer dizer: "Posso ver nos seus olhos, posso escutar nos seus sinais, sinto o seu toque e realizo, a excitação se foi"; palavras e música de Lew Brow e Ray Henderson; gravações na voz de Nina Simone, Julie London e Chet Baker, entre outros.

"Cabe bem nesse momento', pensei, "uma boa canção para se ter no repertório": "Esse é o fim, então porque insistir. As noites são frias quando o amor é velho. Eu estou nos seus braços e você está me beijando. Mas parece estar faltando algo nos seus beijos. O amor que nós conhecemos é só uma memória. Ele se transformou numa comédia. Agora eu não sou interessante pra você, a excitação se foi."

Fico pensando na tragédia grega que se tornou a minha vida, apesar dos lances de comédia e melodrama. Pareço mais com aquelas heroínas gregas tentando consertar o impossível atingindo o inatingível, do que com a mocinha ingênua e virgem esperando ser salva pelo príncipe encantado. Pobre do príncipe que não entendeu nada. Pobre da princesa eternamente idealizada no seu imaginário. Pois o buraco da vida se mostrou mais embaixo.

Estava na hora de desistir para não morrer. Para não se deixar morrer. Para não se deixar ser assassinada por um príncipe-sapo ou um rei maluco. A minha razão estava em outro lugar. A minha briga era outra. Eu havia abandonado o meu campo de batalha.

De volta a ele, na batida do meu coração, começo a ouvir de novo a minha canção. E ela toca uma melodia amorosa e não melosa. Ela quer romance e aventura, não estabilidade. Um lugar aonde possa caber tudo menos caretice. Nas minhas escolhas nunca couberam saídas fáceis. Faz tempos que me comprometi com alguma coisa muito além de relações estabelecidas. Padrões de normalidade não me interessam. Desculpas baratas não me interessam. Valores burgueses não falam de mim. No lugar do vazio do amor só cabe a criação. Só a criação está à altura do amor. Só a criação é capaz de responder a adicção que a droga do amor produz. O que colocar no lugar de momentos perfeitos? O que pode substituir o ar rarefeito do encontro amoroso, a nudez dos corpos e almas imperfeitas, o estado de rendição dos egos?

O amor é uma droga. Nossos corpos produzem a droga. Quando o efeito dela passa o corpo pede mais. E é aí que começam os problemas. Há aqueles que tentam substiuir o "manque", a falta, o vazio, com toda sorte de coisas. Consomem, traem, se entopem de comida, malham, bebem e se drogam pra esquecer. E há aqueles que sentem a falta. Sofrem a falta. Falam sobre a falta. Observam a falta. Testemunham o que ela lhes traz e então criam. Desenham, pintam, cantam, escrevem, compõem, filmam. Não deixam de sentir. Não abortam o sentimento. Não tentam diminuir a razão que provoca os sentimentos. Encaram o sentir como uma coisa boa. A dor como uma coisa que faz parte do amor. Como a outra face do amor. Pois não se pode ter amor todo o tempo. Não se pode viver só no prazer. Amor e dor são faces de uma mesma moeda. Abolir um será excluir o outro. Se recusar a amar é se recusar a viver. Quando desejamos, entramos no circulo do tempo e não podemos controla-lo, nem aos seus acontecimentos. Podemos estar fora do tempo apenas quando abrimos mão do desejo. Quando não desejamos nada. Quando estamos apenas a observar a vida de fora. Assistindo a novelas ou lendo revistas de celebridades. Imaginando como é ter uma vida perfeita, um amor perfeito, um nirvana na terra."

*OUVINDO: 21 Things I Want in a Lover; Hands Clean,
ALANIS MORISSETTE

Um comentário:

Pal, a voz silente disse...

Nunca vou deixar de sonhar. Sonho é o que nos impele à vida. E este texto é uma tradução dum quinhão de mim. Meu passado me fez assim hoje, mais desperta e criativa, porque quando a gente se amarra à alguém, sufoca a ambos nos próprios laços. Vanguarda sentimental é para quem se permite às novas descobertas, nu, desculpado e nada triste! Se melancolizar que se sublime em paraísos astrais. O inferno já existe.